Num destes dias estava a fazer tempo em Setúbal quando me lembrei de escrever isto: "Pela primeira vez estou a meio do mês a desejar que ele voe e leve com ele não só as folhas, mas também os dias agitados. Acho que tenho que assumir definitivamente a ideia de que os momentos tranquilos acontecem no meio da loucura que é a vida, e que nem sempre temos controlo sobre os nossos dias. Ou isso ou paro de me queixar e mudo tudo! 


No fundo sinto que faço sempre a mesma reflexão, mas fica tudo igual. Acho que isso acontece porque estou bem assim, apesar dos desvairados momentos em que penso que a vida deveria ser melhor do que adiar diariamente muito do que nos dá prazer. Parece-me que esta dualidade se sente porque temos esse eterno desejo de insatisfação, mesmo quando atingimos um certo equilíbrio que nos deixa tranquilos, felizes e capazes de aproveitar os momentos mesmo quando tudo está, aparentemente, desalinhado.


Este mês percebi que não me aborreço estando só comigo mesma, e refleti sobre isso algures enquanto papava quilómetros de carro ao som de músicas que passam na rádio e que nem sempre consigo apreciar. Também percebi que o mais certo é que a vida seja demasiado curta para alguém fazer tudo o que quer numa só. Chegar a esse entendimento é uma grande chatice, mas acaba-se-nos com a pressa, porque aceita-se que por mais que se faça nunca vai ser suficiente, e nós ou alguém haveremos de exigir sempre mais. Quando aceitamos esta merda de ideia está tudo bem, está tudo certo, é a porra da vida.


Instantes antes de começar para aqui a praguejar sentei-me num jardim a observar pessoas. Enquanto via um homem começar a dormitar num banco onde muito provavelmente vai passar a noite, e outras pessoas a passar-lhe ao lado indiferentes (tal como eu fizera há poucos minutos atrás), percebi que no fundo é isto: desumanizámo-nos tanto que muitos de nós, a maioria, já não nos importamos com o sofrimento do outro, ou com a sua vida. Ou pelo menos não ao ponto de nos preocuparmos realmente, despoletando a reação que nos poderia impulsionar a agir e fazer a diferença. Estamos cansados e desconfiados de tudo e todos, perdemos o tino da nossa humanidade. Era bom que um dia nos encontrássemos. Enquanto isso não acontece vamos cirandando por aí, demasiado sozinhos e macambúzios a olhar para o caminho que temos que percorrer sem olhar para quem passa por nós, ou está ao nosso lado."


Se tivesse continuado este texto escrito à mão no meu caderno, diria ainda que este mês reparei que as pessoas olham para baixo quando caminham na rua, como se apenas precisassem de ver os seus pés e o chão que vão pisar daí a um segundo. Este mês houve um dia em que acordei e não sabia em que cidade estava. Houve dias em que sorri ao ver a estrada à minha frente, como naquele em que fazia a N2 a caminho de Évora. Nesse instante pensei que um dia gostava de a fazer até Chaves. Já adio este desejo p'rai há dois anos. Merda!


Este mês houve momentos em que cantei alto no carro a curtir um certo som, e outros em que praguejei porque estava cansada de ouvir música de caca. Nesses momentos desejei ser mais tecnológica e andar com um daqueles aparelhos mp3 ou bluetooth que nos permitem ouvir as nossas músicas em qualquer lado. Não me serve de nada reclamar porque na verdade sou como sou e não me apetece mudar coisa nenhuma na minha resistência a gadjets e apps. Porra, reclamo demasiado de coisas com as quais, na verdade, não me importo.


Este mês descobri caminhos e estradas e pela primeira vez não me perdi nem por um segundo. Com isso fiquei com a certeza de que sei sempre regressar a casa. Fiz as contas e percorri mil novecentos e cinquenta quilómetros. Depois percebi que as contas estavam erradas porque na verdade me faltava adicionar à equação uma outra viagem a Lisboa, um voo para o Porto que na verdade aterrou em Santiago de Compostela, uma ida de comboio a Valongo e os regressos a casa depois de tudo isto. Este mês dormi em cinco camas que não são minhas e onde muito provavelmente já não vou voltar a dormir na minha vida. Dormi sozinha muitas noites e senti falta dos abraços do Sérgio em todas elas. 


Apesar deste alvoroço todo, enquanto estava na paragem de autocarro em Leiria às nove da noite a olhar para o chão pisado pelas pessoas e para o guardanapo aí deixado por alguém, nesse preciso momento em que também reparava no bonito contraste das cores, percebi que este mês nunca estive só, apesar de estar, aparentemente, muitos dias sozinha.

Vamos lá espreitar os blogues das minhas #offsightpartners e saber por onde andaram neste início de outono?

8 comentários

  1. Humanidade precisa-se e boas viagens também!

    bom dia

    -___-

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    1. Viagens é que não. Estou farta. Quero parar um bocado. haha

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  2. Hum, andaste por Leiria. Andaste sim sr.ª. :)

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    1. Por Leiria e por tantos outros sítios de Portugal! Que confusão! haha

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  3. Li e reli este texto. E caramba, que preciosidade, Vânia! Ajuda a relativizar. Ajuda a por as ideias no sítio e perceber que realmente não estamos satisfeitos em tempo algum...e aceitando isso realmente é mais fácil - ajuda-nos a aproveitar melhor o que nos faz feliz. Sei lá. Digo eu. Não percebo nada disto...mas olha, as fotos foram a ilustração perfeita! Que bom post! Obrigada!

    Jiji

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    1. Estás certíssima. É isso mesmo. Na verdade este mês fiz tantas reflexões sobre tanta coisa que nem sei, mas consegui resumir tudo aqui. Isto de andar sozinha de um lado para o outro... sobra-nos muito tempo para pensar. Foi um mês cansativo, mas interessante. :)

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  4. Tens razão na tua análise, só acho que não vale a pena queixarmo-nos apenas e não fazermos nada. Ou resignamo-nos ou mudamos o jogo :) Beijinhos

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